Setúbal

 

 

Hospital de São Bernardo

 

Capital de distrito desde 1926, a cidade de Setúbal teve o seu primeiro Hospital Regional vinte anos depois, ao ver atribuído este título ao então Hospital da Misericórdia, situado num anexo do Convento de Setúbal.

Alguns anos depois, a partir do Hospital do Espírito Santo da Santa Casa da Misericórdia, nasce o Hospital de São Bernardo, virado para o futuro e para a saúde dos Utentes. Foi para fazer face a dificuldades na resposta às populações que, em 1953, foi decidida a construção de um novo Hospital em Setúbal, no antigo lugar da Vinha, na parte leste da cidade.

É em 1953 que surge a notícia da criação do primeiro Hospital Regional do Continente, em Setúbal, tendo sido transferidas para o novo hospital os serviços existentes no Hospital do Espírito Santo: a assistência médica e cirúrgica, os socorros de urgência e as clínicas de especialidade. A Misericórdia fica encarregada da sua gestão, competindo ao Estado a dotação de meios. Este projecto, que arrancou no terreno em 1955, deve-se a Antoine Velge, Presidente da Sapec, uma vez que, para o arranque da construção, contribui com 4.000 contos, e em homenagem ao seu filho mais velho, Bernard, que em tempos se havia curado em Portugal, é designado de São Bernardo. Com honras de Estado, a sua inauguração ocorre em 9 de Maio de 1959, quatro anos após o início da construção.

Nessa altura, era Director Clínico o Dr. Sousa Fialho que escreve que durante esse ano se procede à transferência dos serviços existentes para o São Bernardo e à abertura de novos, de forma a responder ao “desígnio regional”.

Para estrear o novo hospital, vieram, essencialmente, 18 médicos da Santa Casa da Misericórdia, e para a prestação de cuidados de enfermagem, pessoal religioso e servente. Com cerca de 250 camas, dispõe de duas enfermarias para Medicina, duas para Cirurgia, uma para Obstetrícia e uma para Pediatria. 13 Camas destinavam-se a quartos particulares e, num pavilhão anexo, 20 reservadas a infecto-contagiosos, posteriormente afectas a Oftalmologia, Otorrinolaringologia, Estomatologia, Dermatologia, Urologia e Ortopedia.

Na altura, o Hospital do Outão era um Sanatório apesar de ali já existirem médicos especializados em Ortopedia, como nos diz o Director Clínico do São Bernardo, em 1962.

Pioneirismo deu bons frutos

Muitos desses primeiros médicos tinham começado como voluntários. Alguns deles foram contratados e trabalharam depois no Hospital de São Bernardo, até praticamente, aos nossos dias, atravessando quase 50 anos desta história. Três, estão na origem do Serviço de Urgência do São Bernardo: Dr. Mário Moura, Dr. Rui de Moura, e Dr. Serra Pinto, segundo o relato deste último. Nos registos de 1962, fala-se em “abuso” : já nessa altura muitos doentes acorriam à Urgência, embora não precisassem desse tipo de cuidados.

Em Outubro de 1971 procede-se a uma cerimónia de colocação de um busto do benemérito Antoine Velge na entrada principal sendo, até 1974, a gestão assegurada por Mesas Administrativas com Provedores designados pela Misericórdia.

Com o 25 de Abril, são constituídas Comissões de Gestão para dirigir o Hospital e Assembleias-gerais de trabalhadores com funções deliberativas. Em 28 de Maio é dada a conhecer a constituição da primeira Comissão de Gestão Hospitalar- que vem substituir a Mesa Administrativa- e a primeira Comissão Directiva – em vez da anterior Direcção Clínica.

No final do mês é lançado à discussão o Projecto de Regulamento da nova estrutura orgânica do Hospital. Seguem-se, em Dezembro, um despacho no Diário do Governo a nomear uma Comissão de Gerência para o Hospital, e em Março de 1975, a 1ª Comissão Instaladora.

A primeira Anatomia Patológica a nível distrital

É em 1974 que o Hospital recebe elementos para realizar o designado serviço Cívico e um grupo de médicos vindos das ex – colónias, como o Professor Gil da Costa, Director da Faculdade de Medicina de Luanda, que veio abrir um laboratório de anatomia patológica dentro do hospital. Assim este foi o primeiro hospital distrital do país a dispor de um laboratório de anatomia patológica.

Outro médico também ligado ao ensino foi o Professor Fonseca Ferreira, que havia sido professor na Universidade de Lourenço Marques. Estes e outros profissionais juntaram-se às equipas existentes, reforçando e desenvolvendo especialidades, técnicas, e, não menos importante, o Ensino, dando um enorme impulso à medicina. Logo a seguir são criados os internatos médicos.

Em meados de 1976 é constituída uma Comissão Instaladora para o conjunto hospitalar São Bernardo e Hospital Sant’Iago do Outão, tendo em vista a criação de um Centro Hospitalar (de Setúbal) por iniciativa de um grupo de médicos. Durante esse mesmo ano, convivem duas estruturas dirigentes: a oficial (Comissão Instaladora) e a decorrente do 25 Abril (Comissão de Gestão).

Com a fixação em 1977 do “Regulamento dos Órgãos de Gestão e Direcção dos Hospitais” e, em 1981, da atribuição de “ autonomia técnica, financeira e administrativa ao Outão” o projecto cai por terra. No antigo dormitório do pessoal auxiliar, é instalado o refeitório. Data de 1979 a construção de um jardim – de infância / creche com a capacidade para 150 crianças, o que mostra bem o número elevado de profissionais que aqui trabalhavam.

Em 1984 o Hospital celebra o seu 25º Aniversário. Com o elevado crescimento populacional do concelho, o Hospital dispõe agora de 315 camas e um vasto conjunto de serviços em seis pisos. Tão vasto, que o Conselho de Gerência de então nomeia seis Directores de Piso. Existem, já, os Serviços de Enfermagem e áreas de gestão como Serviços Administrativos, de Instalações e Equipamentos, Gerais, de apoio ao Pessoal e Cultural.

A importância do Hospital é de tal forma decisiva, no panorama nacional que nesse mesmo ano é lançada a obra de A. Rodrigues Marques (administrador hospitalar) e de Manuel Marques (capelão do Hospital de São Bernardo) que, sob o título “Subsídios para a História dos Hospital de Setúbal”.

A evolução continua

Da autoria do artista português José Escada, o Hospital passa a dispor, na década de 80, de uma Capela e Serviço Religioso. A Consulta Externa funciona num pavilhão pré – fabricado, com 20 gabinetes. O serviço de Urgência, tem 3 balcões (Homens, Mulheres e Pediatria), Sala de Gessos, 2 salas de Observação (SO), 2 salas de pequena Cirurgia, 1 sala de Ressuscitação Cardio – Respiratória e uma sala de observação intensiva. É também aí que fica instalado o Serviço de Sangue, a par da Farmácia, que havia já iniciado, na Medicina, a distribuição “ Uni-dose”.

O Bloco Operatório continua com duas salas para grande cirurgia e uma para pequena e estuda-se a sua reconversão. Em anexo, a Central de Esterilização. O Laboratório de Análises Clínicas é ampliado em 1982. Nesta fase, a Radiologia dispõe de 2 gabinetes.

É nesta altura que são criados o Serviço de Gastrenterologia (1976) e o Serviço de Tratamento Intensivo de Coronários (1977). Em 1985 é inaugurada a Hemodiálise, e a Unidade de Cuidados Intensivos, obra que contou novamente com uma dádiva de seis mil contos da família Velge.

Uma organização virada para o futuro

Apesar das várias obras realizadas ao longo dos anos, a primeira pedra de ampliação do Hospital só foi lançada a 19 de Outubro de 1993, tendo a obra ficado concluída em 1997. Em 1998, ao comemorar o seu 39º Aniversário, é anunciada a remodelação do edifício do Hospital, tendo em vista essencialmente a área de infecto-contagiosos e internamento de psiquiatria agudos.

1999 será também o ano da inscrição das verbas necessárias à implementação de um serviço materno- infantil, da abertura de consultas externas no futuro serviço psiquiátricos agudos e da remodelação de todos os pisos do hospital velho.

No âmbito do processo de empresarialização de alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde, o Hospital de São Bernardo é transformado em Sociedade Anónima, em 11 de Dezembro de 2002, tendo o Centro Hospitalar de Setúbal sido criado em 31 de Dezembro de 2005, integrando, por fusão, o Hospital de São Bernardo e o Hospital Ortopédico Sant’Iago do Outão.

Os serviços do Hospital estão instalados em duas estruturas arquitectónicas – estrutura inicial e edifício novo -, bem como um espaço localizado no exterior, a UDEP destinada ao internamento de Psiquiatria (Crónicos).

Trata-se, agora, de uma Entidade Pública Empresarial – uma EPE, integrada no Serviço Nacional de Saúde.

Hospital Ortopédico Sant’Iago do Outão

As suas origens como templo romano dedicado a Neptuno foram descritas no grande centro industrial romano de produção de preparados de peixe, que ocupavam as margens do Estuário do Sado.

No século XIV, D. João I, interessado na defesa das barras dos rios Tejo e Sado, manda edificar uma Torre para Vigilância da actual entrada do rio – existente no centro da fortaleza actual.

Em 1643 foi lançada a primeira pedra da ampliação da Fortaleza ordenada por D. João IV, tendo em vista a longa guerra com Castela.

Na sequência destas obras seiscentistas remodelou-se a Capela dedicada a Santiago, patrono da Fortaleza, tendo recebido, no primeiro quartel do século XVIII, o notável revestimento azulejar, em azul e branco que ainda hoje se conserva, alusivo à Vida e Milagres do Orago e incluindo painéis de devoção diversas aparições de Nossa Senhora.

Em finais de oitocentos, como se se o Forte deixasse de ter a importância estratégica de outrora foi transformado em residência de Verão pelos reis D. Carlos e D. Amélia pelo que mandaram proceder ao arranjo de aposentos no interior da fortaleza. Nasceram, assim, os belos compartimentos do último piso, decorados com pinturas murais e trabalhos em talha.

Devido à oposição republicana dominante em Setúbal, decidiu a rainha D. Amélia oferecer o edifício para a instalação de um sanatório.

Em 6 de Junho de 1900 nasceu o Sanatório Marítimo do Outão que foi o primeiro estabelecimento da Assistência Nacional aos Tuberculosos e o início de um longo percurso das instalações ao serviço da Saúde.

Os elementos caracterizadores do clima do Outão, ventos oceânicos, estabilidade térmica, luminosidade intensa, quase ausência de nevoeiros e regime de chuvas com predominância nocturna, tornam-no uma estação excelente para a cura hélio-marítima, características indispensáveis para a eficácia destes tratamentos nas tuberculoses óssea e ganglionar.

Logo a seguir à sua abertura, as instalações do sanatório não pararam de crescer com a construção, por fases, de um edifício próprio de três pisos, com 110 metros de comprimento, o qual foi sendo sucessivamente adaptado de maneira a acompanhar os progressos da terapêutica da tuberculose. É assim que vão aparecendo as varandas solários, o laboratório de análises clínicas, a radiologia, salas de operações e serviços de apoio anexos. A organização dos serviços foi influenciada pelos ensinamentos colhidos em hospitais marítimos do estrangeiro, em especial, durante a década de vinte, no hospital marítimo da Assistência Pública de Paris, em BercK.

Dado que os tratamentos obrigavam a longos períodos de internamento, que em alguns casos eram de anos, foram sendo criadas actividades de ensino, culturais e de adaptação ao trabalho, sendo de destacar a escola ao ar livre, a ginástica educativa e oficinas diversas.

Desde 1940, o hospital teve ao seu serviço um dedicado corpo de enfermeiras religiosas, as Franciscanas Missionárias de Maria, que com a notável equipa médica garantiram a sua fama de instituição modelar, tanto nos cuidados de saúde prestados como no acompanhamento e posterior integração social dos doentes.

Pensamos que é deste facto que nasce o espírito de humanização, alicerçado num componente evangelizador e empreendedor, estendendo a prestação de cuidados às áreas familiares, sociais e de formação, principalmente das crianças internadas. Trata-se sem dúvida de um pioneirismo perfeitamente actual e modelar no conceito da qualidade em Saúde. É isto “que se respira” ainda hoje no Hospital e que contribuiu para a sua imagem junto da comunidade e para os elevados níveis de satisfação dos utentes por si tratados.

Nos finais da década de sessenta o Sanatório, devido aos progressos da terapêutica que levaram a uma grande diminuição da tuberculose osteoarticular, passou a tratar também outros doentes do foro ortopédico.

Em Abril de 1971, o Sanatório Marítimo do Outão, até ali pertencente ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos, é integrado na organização hospitalar da Direcção Geral dos Hospitais e classificando como Hospital Central Especializado em Ortopedia.

É nesta área que o hospital se renova e inova muito devendo a uma figura à  qual o seu nome ficará sempre ligado: Jacques Resina.

Médico Jacques Resina é uma referência nacional

Jacques Resina foi colocado em 1954 no Sanatório Marítimo do Outão, e seu Director durante largos anos.

O tratamento de doentes com tuberculose osteoarticular e em especial dos que sofriam de Mal de Pott, cedo o obrigou, logo na década de 50, a desenvolver e aperfeiçoar as técnicas de cirurgia da coluna vertebral.

É de sua autoria o “ Método Português” de tratamento de escolioses e cifoses que foi considerada uma técnica inovadora e precursora do ponto de vista da evolução histórica da cirurgia ortopédica.

A sua dimensão científica e o trabalho desenvolvido cedo extravasam os muros do hospital e Jacques Resina permanece uma referência nacional, tendo sido sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia.